RESENHA: Choujin Sentai Jetman

O melhor Super Sentai de todos os tempos! Essa é a alcunha mais comum atrelada a Jetman quando o tokusatsu é mencionado nos meios de comunicação especializado, seja ele japonês, americano, brasileiro ou europeu. Essa alcunha pode até parecer exagerada, mas uma coisa é certa, Jetman é muito, muito bom!

Talvez pela bruta quebra de padrões que a série exerceu, talvez pela alta quantidade de drama e romance ou simplesmente por referências muito oportunas, o super sentai é ainda muito admirado mesmo após quase três décadas de seu encerramento, sendo o super sentai mais cultuado de toda a história.

DO PASSADO AO PRESENTE

Em 1991, os seriados super sentais completariam suas bodas de cristal. Quinze anos de boa audiência, muitos produtos atrelados a marca, muita venda de brinquedos e até licenciamentos internacionais não é para qualquer um: após uma década e meia é praticamente toda uma geração que amadureceu junto com os esquadrões de heróis coloridos. Por isso a Toei Company decidiu que tal ano deveria ser comemorado em alto e bom estilo, projetando para aquele ano o tokusatsu que deveria ser o melhor seriado da franquia Super Sentai já produzido. Nasce o Choujin Sentai Jetman!

O Esquadrão dos Homens-Pássaro (numa livre tradução para o português) nunca foram licenciados no Brasil, mas sua fama extrapolou as fronteiras do Japão e chegou as terras tupiniquins em matérias de revistas especializadas (saudosa Herói Gold), locadoras de conteúdo japonês e mais recentemente com o advento da internet. E essa fama não é para menos, afinal, até hoje podemos sentir no gênero várias influências da série.

Exibido no Japão em 2011, o Kaizoku Sentai Gokaiger (leia a resenha aqui), por exemplo, utiliza-se de personalidades muito similares aos do quinteto de Jetman, variando apenas em alguns detalhes em sua composição.

UMA SÉRIE ORIGINAL

Em todo seriado Super Sentai existe um certo padrão definido para atender a todas as empresas envolvidas em sua produção, entre elas estão a participação obrigatória do robô, a aparição de todos os vilões principais, a aparição do “monstro da semana” e a transformação de todo o esquadrão. Esses padrões servem para apoiar, principalmente, a venda de bonecos da franquia, tida como seu principal negócio. Porém, Jetman pareceu ignorar fatores mercadológicos e funcionais do gênero para contar sua história.

A história já começa diferente do usual. A Sky Force, base militar construída para a defesa da Terra, está prestes a condecorar cinco jovens que receberão o poder de vestimentas que se utilizam da recém descoberta energia birdonic. Nesse exato instante, a base é atacada pela força dimensional Vyran, grupo de vilões que passa de dimensão em dimensão conquistando mundos e fazendo seus seres vivos de escravos.

Até aí não há nada de diferente dos outros sentais, mas o caso é que o ataque resulta na morte de toda a Sky Force, inclusive quatro dos cinco jovens que receberiam a força do Birdonic, sobrevivendo apenas o astuto líder Ryu Tendo, o Red Hawk e a sua comandante Aya Odagiri.

Para completar, a energia dos outros quatro guerreiros que morreram se espalharam pela Terra, sendo recebidas pela doce milionária Kaori Rokumeikan (White Swan), do inocente agricultor Raita Ooishi (Yellow Owl), da hiperativa estudante Ako Hayasaka (Blue Swan) e do pavio-curto saxofonista Gai Yuki (Black Condor). Porém os quatro não foram apresentados diretamente no primeiro episódio como aconteceram em todos os que o precederam, Gai e Ako aparecem apenas no segundo episódio, dando tempo aos roteiristas de elaborarem contextos que deixassem bem marcadas cada uma das diferentes personalidades dos cinco heróis.

Aos vilões também é dado um contexto humano, gerando empatia.

Essa melhor distribuição de apresentação dos personagens não aconteceu apenas com os personagens principais. Os mechas, que já em Flashman já haviam deixado de aparecer no primeiro episódio, bateu seu recorde em deixar os espectadores aguardando a sua estréia. O Jet Icarus, principal robô da equipe, só foi dar as caras no episódio 6, após um longo treinamento dado da comandante e de Ryu aos novatos.

O DESENROLAR DA HISTÓRIA

Talvez um dos pontos que tenham realçado o sucesso do seriado e atraído jovens e adultos para a história infantil, foi o clima de novela e a grande quantidade de romance para um super sentai.

A história tem como foco a luta de Ryu em trazer as lembranças de Rye, sua noiva que teve sua memória apagada quando Vyran atacou a Sky Force, se transformando na temível comandante Maria.

Até aí tudo bem, porém Kaori desenvolve grandes sentimentos por Ryu, que não podendo os corresponder, acaba tendo várias discussões e brigas com Gai, que se apaixona por Kaori, que também não pode corresponder aos sentimentos do rapaz. O quadrado amoroso vira quase que um pentagrama quando descobrimos que Raita também nutre sentimentos por Kaori, mas que teme admiti-los por medo e rejeição.

Para quem pensou que o romance acabaria nos heróis, se enganou: os vilões também amam, mesmo que tenham metal e óleo em sua composição ao invés de carne e osso. Vyran é formado por mais três grandes líderes além de Maria: Grey, Radiguet e Tran.

O confronto constante entre Red Hawk e Black Condor é uma das

características que fazem a série ser inesquecível.

Grey é o destaque dos três. Um robô fumante (!) todo negro com olhos semi-cerrados, sempre dão a impressão que ele é indiferente ao que acontece ao seu redor, mas que se apaixona perdidamente por Maria, que também é alvo das obsessões de Radiguet, que representando o amor possessivo na história e quer a ex-militar como uma escrava.

Os únicos que ficam a par aos enlaces amorosos no seriado são Toran, que é uma criança e Ako, que mesmo sendo uma estudante do colegial e tendo um ou outro episódio voltado a garotos que tem uma “quedinha” por ela, só está interessada em dinheiro e riqueza.

DRAMA

Os conflitos de personalidades não param por aí. A alta dose de drama nos episódios rendeu tramas interessantíssimas aos episódios do tokusatsu. Uma que vale destacar é o episódio em que Radiguet é deposto de Vyran por Juzza, uma ex-imperatriz de Vyran que estava adormecida em um cometa da dimensão da terra. O vilão é transformado em um ser humano comum sem memórias, o que faz com que partes de sua personalidade nunca antes mostradas ficassem latentes: além de salvar uma garota da morte, ele se apaixona por ela e fica disposto a lhe dedicar a vida para todo o sempre.

Essa tendência de trazer modelos de vilões bonzinhos, não ficou restrito aos quatro grandes de Vyran. O caso mais notável foi Dryer Jigen, monstro secador de cabelos (!) que por estar ao lado de Vyran pensa que precisa fazer maldades para cumprir com sua “função natural”. Mas logo, Jetman consegue trazê-lo para o bem abusando da conversa e sem muito utilizar a força dos birdonic.

Heroi e vilã: o romance de Ryu e Maria cria situações únicas em Jetman.

Outro ponto a considerar é que a força dos Birdonic e dos mechas, os principais atrativos para prender a atenção das crianças na TV, ficam em segundo plano em várias e várias ocasiões para dar lugar aos dramas amorosos.

Um problema de muitos super sentais que vieram antes de Jetman é a obrigatória participação do robô que atrapalha o contexto da premissa criativa do episódio, mas em Jetman isso não acontece. A presença do robô é na maioria das vezes muito bem colocada e, caso a presença do robô não se faz necessária, ele é cortado. O interessante, é que mesmo com o corte dos mechas em mais um quarto dos episódios, o seriado apresenta quatro deles em seu acervo, além do já citado Jet Icarus, o quinteto possui o robô herdado do povo de Dimensia, o Jet-Garuda, que fundido ao robô primordial dos Jetman resulta no Great Icarus e, por fim, o todo entusiasmado Tetra-Boy, que não precisa de controle para lutar contra os inimigos.

FINAL DIFERENTE DE TUDO O QUE JÁ FOI FEITO

Para encerrar com chave de ouro, Jetman preparou diversas surpresas para o expectador. Uma das cenas de maior representatividade durante o desenrolar dos episódios foi quando Ryu abraça Maria e diz que mesmo ela sendo sua inimiga, ele vai lutar única exclusivamente pelo seu amor. Sem ação, Maria se impressiona com o ato de inimigo.

A cena se repete nos últimos episódios, mas diferente da primeira vez, é selada com um beijo que Ryu dá a força em Maria, o que lhe faz ter suas lembranças de volta. Aturdida por todas as maldades que fez com Ryu, ela tenta matar Radiguet, que não suportando a falta de subordinação de sua companheira, a atinge fatalmente.

Este episódio é o divisor de águas para o final da série. Ryu, afetado pela morte de Rie, tenta vencer Vyran sozinho, mas tem a ajuda dos seus quatro companheiros e até da comandante que aparece na última hora pilotando Jet-Garuda para a batalha final contra Radiguet.

Ako dá o ponto de vista jovem em uma série com protagonistas maduros.

Após o fim das batalhas, passam-se 3 anos e o futuro dos personagen é contado. Raita casa-se com Sa-chan, uma amiga de infância que lhe havia jurado matrimônio. Ako torna-se uma grande popstar da música e Ryu finalmente cede aos apelos de Kaori e também se casam. A amarga surpresa ficou por conta do que os roteiristas prepararam para Gai.

O Black Condor acaba de comprar o presente de casamento para Ryu e Kaori quando um trombadinha rouba a bolsa de uma senhora que passava na rua. Revoltado com isso, Gai vai atrás do bandidinho e lhe toma a bolsa, mas o pior acontece: o bandido portando uma faca rasga a barriga do ex-Black Condor. Com as últimas forças que lhe resta, o saxofonista vai até a porta da igreja e troca algumas palavras com Ryu sobre a importância de tudo o que passaram juntos. Gai morre com um sorriso no rosto num banco de praça ao ver Ryu, Kaori e os outros tirando a última foto antes de partirem.

A morte do personagem mais cativante e interessante da história, é um baque para quem assiste, seja criança ou adulto. É possível interpretar tal sequência como uma crítica dos redatores a quem assite ao seriado: o quinteto de heróis arriscou a vida para defender os humanos dos perigos que um domínio do Império Vyran representaria para os terráqueos, mas a morte do personagem se deu exatamente por aquele que ele passou 51 episódios defendendo: não adianta temer ou tentar se proteger de forças sobrenaturais e fantásticas se o maior perigo que o ser humano enfrenta é ele mesmo.

O capacete quebrado de Black Condor é uma cena chocante até para o espectador adulto!

ALÉM DE JETMAN

Jetman fez tanto sucesso que foi adaptado para um mangá one-shot intitulado: Choujin Sentai Jetman: Toki o Kakete onde um novo membro, Green Eagle entra para a equipe substituindo Black Condor.

Além disso, a série ainda ganhou uma trilogia de livros, onde foi possível abordar pontos não explorados em uma série infantil, indo mais a fundo nos relacionamentos e chegando até a abordar a sexualidade dos casais. A trilogia foi escrita por Toshiki Inoue, com capas ilustradas por Keita Amemiya e lançados pelo selo Tokuma Quest Bunko da editora Shogakukan.

A repercussão da série e de seu final ainda mexe com os ânimos de fãs e crianças por todas as partes do mundo, todos que acompanharam as aventuras da equipe sabem que os dramas e conflitos de personalidade passam não apenas grandes lições, mas grandes histórias.

Isso é ainda mais latente nos episódios que focam Ryu e Gai. Com personalidades tão distintas que criam richas até mesmo ao pedirem bebidas, nota-se que o protagonismo é bem divido entre os dois, que representam os dois grandes tipos de personalidade do povo japonês, um mais contido e responsável e outro mais explosivo e relaxado. É interessante notar como Ryu se mantém determinado ao seu propósito mesmo com os apelos de Kaori, e como Gai oscila quando se depara com problemas com os pais da garota.

Jetman será sempre lembrada por sua quebra de paradigmas!

Além da facil identificação com os personagens, sejam eles heróis ou vilões Jetman ainda se beneficiou de um grande atrativo para compor sua fórmula de sucesso: os uniformes dos protagonistas foram baseados em um antigo anime de sucesso, Gatchaman, conhecido no ocidente como EagleMan, graças ao jogo Tatsunoko vs. Capcom.

Todos os elementos combinados somado a temática romântica de interesse de todas as idades e gêneros dão a Jetman o título de melhor tokusatsu de todos o tempos. Mas há detalhes que o seriado perde alguns pontos.

A composição dos monstros até mais ou menos até a o meio do seriado é muito superficial, a maioria baseada em eletrodomésticos, que no início até é interessante, mas que fica bem previsível após alguns episódios. Do mesmo jeito, muitos monstros interessantes são descartados muito rapidamente: muitos até duraram mais episódios que a maioria dos sentais, mas, provavelmente devido a dinâmica do mercado de brinquedos, não puderam explorar todo o seu potencial.

O fim de alguns dos personagens mais interessantes, Tran (que em seu fim já havia se tornado Tranza) pareceu composta muito de última hora, criando uma situação que não se liga vários aspectos do contexto passado pelo episódios para dar seu fim. Tal problema não acontece em Flashman, por exemplo.

Apesar de alguns detalhes, a escolha do tokusatsu para ocupar o topo da lista de melhores super sentais é muito bem justificada, combinando em uma narrativa infantil uma trama madura, com personagens cativantes que se completam e roteiro que privilegia o sentimento sem deixar de lado a ação.

Bem que podia ter vindo para o Brasil.

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