RESENHA: Demon Slayer | Mangá

O laço entre irmãos sempre foi um caminho interessante para se contar histórias. Desde João e Maria, passando por Supernatural até chegar em FullMetal Alchemist, é impossível nao se identificar com a amizade natural e os problemas verossímeis que os personagens passam. Demon Slayer toma como princípio esses laços para entregar uma saga que será o ponto de partida para muitos fãs da cultura pop japonesa a partir de agora.

Atenção: esse texto contém a análise geral de todo o mangá de Demon Slayer e observações pontuais de diversas passagens chave para o entendimento da história. Por isso, se não tiver lido todo o mangá e não quiser receber nenhum SPOILER, pare a leitura imediatamente.

O PONTO DE PARTIDA IDEAL

Para criar o mangá Demon Slayer (ou Kimetsu no Yaiba no Japão), a mangaká Koyoharu Gotouge acertou em cheio no cenário, na temática e ainda escolheu um casal de protagonistas que é sinônimo de sucesso.

O período Taisho foi um período cheio de problemas políticos e econômicos para o Japão. Ocorrendo entre 1912 e 1926, foi uma época marcada por um crescimento econômico muito rápido, seguido de uma grande recessão após a recuperação européia pós Primeira Guerra Mundial, criando um Japão que começa a se industrializar, mas ainda está apegado aos hábitos feudais. Local ideal para uma história folclórica com personagens de genuína simplicidade.

Nezuko é a personagem mais completa de toda a história

A temática é a caça aos demônios, personagens consagrados em diversas histórias da mitologia popular japonesa (leia nossa resenha de The Promised Neverland clicando aqui). Aqui, o vilão Muzan transforma suas vítimas em demônios e uma ordem de caçadores é criada para combatê-la.

Os protagonistas são os irmãos Kamado: Tanjiro, um menino amável com todos e muito prestativo para a sua mãe vendendo lenha na cidade todos os dias; e Nezuko, a querida irmã que é transformada em demônio após um ataque que mata a todos os outros membros da família Kamado.

Com um primeiro capítulo emocionante que captura o leitor logo de cara, tanto pela preocupação de Tanjiro com Nezuko como pela expectativa que atual estado da garota pode gerar na trama, Demon Slayer tem um ponto de partida ideal para se tornar um sucesso.

RITMO LENTO

Ao formatar os protagonistas, Gotouge acertou em cheio com Nezuko: design original, personalidade forte e potencial para criar situações incríveis.

Com Tanjiro, a autora escolheu um caminho diferente da maioria dos mangás. Apesar de um design interessante, a personalidade de Tanjiro é extremamente equilibrada, refletindo muito bem o tipo de poder elemental que a autora escolheu pra ele. Enquanto a grande maioria dos personagens de mangá possuem poderes de grande expressão, como fogo, trovão ou luz, Tanjiro ganhou poderes de água.

A preocupação de Tanjiro com Nezuko gera uma identificação imediata

Visto que Nezuko já tem um personalidade marcante, esse equilíbrio de Tanjiro foi muito bem-vindo, mas ele acaba aí, pois as expectativas criadas no primeiro capítulo demoram para acontecer.

E isso não acontece apenas com o casal protagonista. Zenitsu e Inosuke, que se unem a Tanjiro e Nezuko durante a história, demoram para mostrar para que vieram, servindo por um longo tempo como alívio cômico, quase descartáveis para a narrativa para só serem realmente desenvolvidos em pontos muito avançados da história.

Apesar de ser comum para qualquer leitor ler várias pequenas missões de aquecimento nos mangás da Shonen Jump, os arcos de treinamento e das primeiras missões parecem sem muito propósito para a grande história prometida no primeiro capítulo.

É claro que essas passagens não são ruins. Gotouge é uma excelente desenhista e cria quadrinhos com diagramações incríveis e empolgantes. Além disso, sabe criar personagens carismáticos e sabe aguçar sua curiosidade pelo que vem pela frente, mas a sensação de que a história está sem direção dura bastante tempo, até chegar num ponto decisivo.

O DIVISOR DE ÁGUAS

Após serem salvos por Giyu Tomioka, o time protagonista é levado para um encontro com os nove Pilares (ou Hashiras) da Demon Slayer Corps, uma organização não reconhecida pelo governo que existe a centenas de anos para matar os demônios.

Os Pilares são um grupo de elite formado por nove membros que passam a treinar e a compartilhar a caça de Kamado pelo vilão Muzan, que também tem um grupo de elite formado por doze Luas.

Rengoku foi tão popular que vai ganhar um spin-off solo

Durante o arco do Trem do Infinito, nos é apresentado Kyojuro Rengoku, o Pilar do Fogo, que se torna um mártir para Tanjiro e lhe dá uma inspiração extra para agir.

Nos arcos a seguir, o ritmo continua lento, mas Tanjiro e Nezuko são usados melhor e o carisma dos “cavaleiros de ouro” da história dá um charme novo para o mangá, fazendo com que o background emocionante de todos eles (sobretudo de Tengen Uzui, o Pilar do Som, Sanemi Shinazugawa, Pilar do Vento e Gyomei Himejima, Pilar da Pedra) dê cada vez mais vontade de acompanhar até onde a trama pode chegar.

CORRIGINDO A VELOCIDADE

O ritmo alucinante da produção semanal de novos capítulos é esgotante para todo mangaká e estressante para todos os envolvidos com a produção da obra. Na Shonen Jump, a cobrança é ainda maior, visto a importância da revista. Por isso, como tantos outros, Demons Slayer foi afetado pelo cansaço da autora. Mas isso trouxe também pontos positivos na saga final.

A começar pela correção de ritmo. Se em muitos arcos pós Trem do Infinito as batalhas contra as Luas Superiores demoravam muito para serem concluídas, o ritmo de apresentação de personagens, desenvolvimento de background e encerramento criativo melhorou muito.

Personagens como Zekitsu, Inosuke e Kanao Tsuyuri finalmente puderam ser explorados de maneira a não serem apenas um apoio para o protagonista.

O carisma dos pilares faz a história ficar cada vez mais querida

As lutas ganharam um ritmo saudável e a conclusão de cada uma passou a ser algo natural. Sem se preocupar em mostrar o quanto os vilões podiam ser fortes, a autora conseguiu deixar todos os níveis de poder mais orgânicos, sem precisar forçar nada.

O problema foi tudo isso acontecer na última saga. Apesar de ser emocionante, bem construída e com batalhas emocionantes, cada uma das lutas desenvolvidas poderia ter acontecido numa cadência de acontecimentos maior, para desenvolver Pilares, Luas, coadjuvantes e protagonistas de maneira mais bem distribuída pelos volumes.

Não foi um final corrido, mas muitos personagens tinha potencial para fazer muito mais. Sobretudo Nezuko, que como na maior parte da série, ficou restrita ao cuidado do irmão. Uma personagem extremamente forte e carismática que siginificou a virada para aquele mundo ficou, como a maioria das mulheres japoneses se sente, restrita a proteção masculina.

FIM DA CAÇADA

Com o sucesso enorme do anime de 2019, era esperado que a saga final que começou mais ou menos na mesma época da adaptação para TV se extendensse, afinal, Koyoharu Gotouge ganhou um status nunca antes conquistado por uma mangaká mulher na Shonen Jump após vender mais de 80 milhões de de exemplares de um mangá de 23 tankohons.

Mas a autora resolveu seguir com seu plano inicial e o mangá finalizou na saga da Mansão do Infinito, amarrando muito bem o final de todos os personagens e dando um alívio para os fãs em um último capítulo de fan-service aplicado na hora certa.

A fraternidade de Tanjiro e Nezuko ficou para a história e sempre representará o forte laço entre irmãos

Avaliando no geral, Demon Slayer foi um mangá que aplicou a receita Shonen Jump de um jeito muito primorosa. Não é um mangá disruptivo como The Promised Neverland, mas pega todos os elementos consagrados de um mangá shounen, conhece o público japonês e sabe aplica-los muito bem.

Como legado, Demon Slayer serve como a entrada ideal de muitos fãs que resolverem se aventurar pelas páginas de um mangá pela primeira vez, pois apresenta as características desejadas de um grande público de um maneira simples, conceitual e carismática.


SOBRE DEMON SLAYER: KIMETSU NO YAIBA

Criado por Koyoharu Gotouge, Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba é um mangá publicado na revista antológica Shonen Jump, da editora Shueisha desde 15 de fevereiro de 2016, somando 208 capítulos em 23 volumes tankobon compilados.

A história se passa no Período Taisho da história do Japão, quando Tanjiro Kamado, um garoto bondoso e inteligente que vive junto com sua mãe e seus irmãos, descobre que toda sua família fora atacada por demônios, sendo que uma de suas irmãs, Nezuko, a única que sobreviveu ao ataque, se tornou um demônio! Tanjiro decide então se tornar um caçador de demônios e, com a ajuda de Nezuko, passa a sair em jornadas pelo Japão a fim de impedir que a mesma tragédia que afetou sua família aconteça com outras pessoas, enquanto que ele busca uma maneira de tornar Nezuko humana novamente.

Um anime com 26 episódios foi produzido pelo estúdio Ufotable e exibido no Japão em 2019. Um filme que dá sequência ao anime será lançado em outubro de 2020.

No Brasil, o mangá é publicado pela Editora Panini e o anime transmitido pela Crunchyroll (com legendas em português).

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