RESENHA: The Promised Neverland | Mangá

Ser criança para sempre pode soar tão mágico e convidativo quanto um pesadelo. Estar preso a um estado, condicionado pelo meio até onde você pode chegar é tão perturbador quando um futuro garantidamente cheio de incertezas. The Promised Neverland é o mangá que vai além ao contar uma história de liberdade em uma terra do nunca em que não é permitido chegar a vida adulta sem vender sua alma a uma promessa milenar.

Atenção: esse texto contém a analise geral de todo o mangá de The Promised Neverland e observações pontuais de diversas passagens chave para o entendimento da história. Por isso, se não tiver lido todo o mangá e não quiser receber nenhum SPOILER, pare a leitura imediatamente.

UM INÍCIO PERTUBADOR

Uma vida confortável, amigos para brincar, uma mãe carinhosa, a melhor comida e a melhor educação é o desejo de toda criança. Emma, Norman, Ray e dezenas de outras crianças órfãs tem tudo isso em Gracefield House, um dos cinco melhores orfanatos do mundo cuidado por “Mama” Isabella, a responsável pelo local.

Tudo isso seria perfeito caso não fosse o destino que a criança recebe ao ser adotada. Ao completar 7 e antes de chegar aos 12 anos, as crianças são enviadas para serem devoradas por demônios, descobrindo que Gracefield House não passa de uma fazenda de produção de carne humana. Ao descobrir isso por um acaso do destino, Emma, Norman e Ray, os melhores alunos do orfanato, passam a fazer de tudo para fugir do macabro local.

Mama é afetuosamente assustadora!

Esse é o enredo inicial de The Promised Neverland (ou Yakusoku no Neverland, no original), mangá criado por Kaiu Shirai (roteiro) e Posuka Demizu (arte) publicado entre 2016 e 2020 na revista semanal Shonen Jump, da editora Shueisha.

Com um mix de terror com inocência, o mangá logo se destacou entre todos os publicado na Jump, chamando muito a atenção de todos os leitores e se convertendo em um sucesso rapidamente, pois era diferente de tudo o que a revista já havia publicado.

Com uma pontuação acadêmica perfeita, o trio protagonista se completa a medida que a história avança e o jogo psicológico envolvendo eles e a “Mama” Isabella faz com que o enredo perturbador se torne uma narrativa de estratégia próximo a um jogo de xadrez.

Apesar de todos serem extremamente inteligentes, suas diferenças os tornam muito singulares. Enquanto Emma tem uma grande inteligencia emocional, sempre buscando o bem comum e propósitos mais altruístas, Norman é mais estratégico e Ray mais frio, buscando sua sobrevivência acima de tudo.

A “Mama” Isabella, além de tão inteligente quanto as crianças e extremamente doce, se torna cada vez mais aterrorizante cada vez que dita as regras do jogo, conseguindo coagir as crianças de um jeito perturbadoramente afável.

Emma é mais querida de todo o orfanato

Nessa primeira saga, a dupla Shirai e Demizu conseguiu o que pouco mangakás conseguem logo de início: criar algo inovador com personagens carismáticos que instiga o leitor a querer mais, visto a grandiosidade do universo criado.

UM UNIVERSO GRANDIOSO

Com o fim da primeira saga, chegou o momento dos autores expandirem o universo e começar a responder as perguntas que surgiam na mente dos leitores: o que eram os demônios? Como o mundo se tornou como é? Por que foi criada uma fazenda de demônios? As respostas são dadas em todo o macro-arco de Goldy Pound, que vai desde o encontro com Mujika até a fuga do bunker.

Em sua busca por Willian Minerva, as crianças encontram Mujika e Sonju, dois demônios que se negam a comer carne humana e explicam aos fugitivo como o mundo se dividiu em dois após uma promessa entre humanos e demônios.

Nesse arco, Emma decide qual será seu propósito uma vez que saiu de Gracefield House: encontrar o líder dos demônios de nome impronunciável e fazer com que uma nova promessa que dê um fim a essa terra do nunca onde crianças humanas não tem o direito de crescer.

Seguindo as orientações de Minerva e chegando a Goldy Pound, as crianças ainda encontram um outro grupo de fugitivos de outras fazendas e aqui vale destacar a capacidade de criação de personagens cativantes que Shirai e Demizu tem: desde Yuugo e Lucas, passando por Violet, Oliver, Gillian, Zack e os vilões Bayon e Leuvis, todos os personagens ganham seu destaque e, assim como já havia acontecido com Gilda, Dom e Phil na primeira saga, a identificação com o público é imediata.

Norman é o mais estratégico

Um destaque desse arco é Ray que, com nítida evolução de personalidade a cada embate que eles enfrentam, deixa para trás o personagem egocêntrico e se torna o aliado mais precioso de Emma.

É a partir desse arco que a narrativa de terror é substituída por mais aventura e ação, muito mais próximo da maioria das histórias da Shonen Jump. Se por um lado uma das melhores características do mangá se perdeu, várias possibilidades foram criadas para o autor, que agora podiam explorar o vasto mundo que criaram com enorme facilidade.

A ACELERAÇÃO

Após a fuga do bunker, os leitores puderam observar mais mudanças na história que passavam a afastar a obra cada vez mais a narrativa psicológica com pitadas de terror do início do mangá.

Nessa fase, ao invés de pegar um tema e explorá-lo ao máximo, os autores resolveram entregar as respostas aos leitores sem poupar explicações sobre a criação dos demônios, sua organização, seus mitos e crenças.

Isso é reflexo direto da mudança de ritmo da narrativa, que ficou extremamente acelerada. Nesta saga é possível ver arcos com heróis se tornando vilões, combates entre clãs, invasões a fazendas, fugas, buscas e mais um monte de acontecimentos condensados em poucos volumes.

É ótimo acompanhar o amadurecimento de Ray

Se por um lado é interessante ver uma narrativa que não poupa esforços a entregar o máximo possível aos leitores, muitas vezes fatos importantes parecem ser pouco desenvolvidos. Argumentos importantes usados pela Emma que conseguem virar o curso dos acontecimentos acabam se baseando em momentos que, anteriormente, pareceram bem batidos e sem efeito.

É claro que isso não tira o valor desta fase, inclusive, a mais empolgante do mangá. A cada página lida, a vontade é quase a de querer entrar na revista e poder dar um jeito ajudar os protagonistas nas incontáveis decisões morais que eles são colocados.

De um jeito surpreendente, os autores começaram a se aproximar cada vez mais do final, mas havia uma sequela da narrativa acelerada que afetou o resultado total do mangá.

O PROBLEMA

Lembra do líder demônio com nome impronunciável? Este líder está acima de todos da realeza e é com ele que o clã Ratri fez a promessa explicada por Mujika que dividiu o mundo em dois.

Por muito tempo, a promessa parecia ter divido o mundo em áreas, uma área destinada aos humanos viverem e outra destinada aos demônios. Porém, conforme a história vai avançando esse demônio vai ganhando poderes cada vez mais “divinos” e descobre-se que, na verdade, a promessa dividiu o mundo em duas realidades: uma em que só vivem humanos e outra que só vivem demônios, cabendo ao clã Ratri administrar a passagem entre mundos.

Deus Demônio? Ou um Rei com poderes especiais?

Assim, graças a esse personagem, a verossimilhança criada durante todo os arcos da história vai por água abaixo.

Não que não seja interessante ver o caminho que Emma e Ray passam até chegar ao demônio. Esses capítulos, além de introspectivos, tem um quê de arte abstrata que poucos mangás tem coragem de se aventurar, chegando a um resultado excelente.

Mas, diferente de todos os demônios comuns, a realeza e a “demônio com sangue amaldiçoado”, o demônio com nome impronunciável não teve origem explicada, não apresentou motivos para seus “poderes” (algo inclusive que nenhum outro demônio teve) e não teve um arco de desenvolvimento que justificasse a sua presença na história.

É possível que, no fim das contas, fosse a intenção dos autores deixar essa entidade sem contexto para gerar discussões e interpretações do público para a história. Estrategicamente, é interessante deixar lacunas para os fãs preencherem, mas se isso realmente foi uma estratégia, ela destoa muito de toda a obra de The Promised Neverland.

O FINAL

O arco do final começa com a volta das crianças para Gracefield House e, assim como tudo após a saída do bunker é feita em ritmo acelerado. Ótimas surpresas aguardam nesse arco, sobretudo todo o arco de redenção da “Mama” Isabela e o enfrentamento moral de Emma contra Peter Ratri.

Paralelo a isso, Shirai e Demizu conseguem apresentar um fluxo de uma nova organização no mundo dos demônios que mescla uma bem formulada evolução de acontecimentos, com um Deus EX Machina e algumas reviravoltas desnecessárias que desembocam em um final bem pé no chão.

Para as crianças, o desfecho acontece com a realização da promessa que Emma faz com o demônio de nome impronunciável que, por mais incrível que pareça, gera um mini-arco de poucos capítulos antes de dar o fim definitivo.

De uma fuga para uma revolução!

Nesse arco, o leitor é colocado frente a um problema que consegue ao mesmo tempo parece ser simples e complexo, pois tanto dá a impressão de ser fácil, como impossível de ser solucionado.

Até chegar nas últimas páginas, fica difícil saber qual será o desfecho que os autores vão dar ao mangá, deixando uma reflexão tão altruísta quanto sua protagonista poderia ser.

O LEGADO

Cheio de questionamentos, The Promised Neverland abordou temas sensíveis da vida moderna sem perder o charme e a magia de um mangá Shonen.

Na trama, acompanhamos personagens que muitas vezes perdem tudo o que os faz ficar em pé para se superar ao alcançar um objetivo maior, mas também acompanhamos uma obra que provoca o leitor a pensar em pequenos detalhes do dia-a-dia que muitas vezes são despercebidos: qual o significado de comida, qual a importância dos seres que nos cercam e o que significa ser livre. Liberdade, aliás, que é a chave de todo o desenvolvimento da história.

Durante toda a saga acompanhamos Emma, Ray, Norman e diversos outros personagens em busca de uma liberdade que iam prendendo eles a medida que iam ficando mais próximos de conquistá-la.

Em uma história onde o objetivo é crescer para se livrar das correntes que lhe foram impostas, é poético que as lições aprendidas a cada arco faça com que os protagonistas se coloquem cada vez mais no lugar de quem roubou seu futuro e se responsabilizem por todas as mudanças causadas por sua liberdade.

Apesar de alguns detalhes que incomodam, mas não tiram o valor da obra, The Promised Neverland mostrou que é possível ousar e o resultado ser exuberante, se tornando um dos melhores mangás de sua década e uma inspiração para todos aqueles que quiserem contar uma história livre de amarras.


SOBRE THE PROMISED NEVERLAND

Criado por Kaiu Shirai (roteiro) e Posuka Demizu (arte), The Promised Neverland (Yakusoko no Neverland, em japonês) é um mangá publicado entre agosto de 2016 e junho de 2020 na revista semanal Shonen Jump, da editora Shueisha, somando um total de 181 capítulos.

A história conta a vida de Emma, Normam e Ray, as três crianças mais velhas do orfanato Grace Field House, considerado o melhor lugar para qualquer criança crescer graças a boa estrutura curricular, alimentação saudável e uma cuidadora que lhes dá muito carinho e afeto. Porém, ao descobrir o destino macabro dos orfãos que são adotados, os três começam a criar um plano para escapar do lugar.

Uma anime foi adaptado em janeiro de 2019 com 12 episódios pelo estúdio CloverWorks, contemplando o primeiro arco da história e está disponível no Brasil via Crunchyroll com legendas em japonês. O mangá é publicado pela Panini.

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